quarta-feira, 11 de julho de 2012

Os gordurosos gigantes e os ratos da cidade baixa


Elio Moreno, sábio professor e excelente amigo, contava um conto recorrente: gigantes comiam numa mesa de fartura e abundância e nós, ratos, ficávamos felizes quando caiam migalhas maiores, sem nos dar conta de que - grandes ou pequenas - eram migalhas.

Há uns 3 anos eu me achava o rei da cocada porque "ganhava bem".
Caí fácil, fácil no conto do conforto da nova classe média, amalucando-me de trabalhar e esquecendo-me de objetivos, estudos, livros e da arte. Mas a tolice não parava só na ilusão de sentir que o mundo finalmente abria as portas para mim. Sem saber alimentava o gigante e colhia, agradecido, a migalha: dava cerca de 30 horas de aula por semana para cerca de 8 turmas de cerca de 15 alunos que pagavam cerca de 200 reais por mês cada um.

Fazendo grosseiramente as contas: cada turma pagava por mês cerca de 3.000 reais que era mais ou menos o que valia o sal do meu suor (minha ilusão de riqueza, meu super passaporte dourado para a Fantástica Fábrica onde finalmente eu via e tinha os doces que queria). Enquanto isso, as outras 7 turmas às quais eu ministrava aulas rendiam 21.000 reais aos gigantes.

Sem dúvida a infra-estrutura, os funcionários, e tudo mais - incluindo impostos - comiam um pedaço desse dinheiro que eu não recebia. Mas esperem lá! A escola para a qual eu trabalhava não pagava impostos porque era "sem fins lucrativos" (os gigantes sabem inventar nomes para sempre comer sem serem interrompidos pelos ratos da cidade baixa). Então eu recebia 12,5% do que produzia, o governo não recebia nada, e, portanto, os gigantes pareciam ter inventado um negócio cujo custo operacional era de 87,5%. Afinal, todo dinheiro de uma empresa sem fins lucrativos precisa ser reinvestido na própria empresa. Ou talvez os gigantes falem outra língua e tenham uma matemática em que essas contas dêem outros resultados - sempre a favor de continuarem a comer.

A questão central não é a tal empresa para a qual trabalhei, mas o tipo de relação de trabalho que estabelecemos, nós, os ratos que consomem migalhas. O truque no qual caímos segundo o qual o que importa é o dinheiro e que nos faz macular as relações e, no fim das contas, nem nos dá aquilo que esperamos estar recebendo.

Talvez os gigantes lá em cima sorriam e se empanturrem, gordos lábios engordurados de consumir o suor de quem executa suas ordens invisíveis. Mas há algo aqui embaixo que tem um sabor menos engordurado e mais doce: sorrisos, conversas, colo e paixão.

Eles dizem que temos que possuir as coisas, encaixotar pessoas, empilhar livros, colecionar dvds. Mas as pessoas esperam ansiosas por um aceno que quebre a monotonia de um dia sem cor, o conhecimento abunda solitário nas bibliotecas, os filmes se fazem presentes em salas carentes de quem os possa ver.

Não é que precisemos queimar os shopping centers - embora a fumaça pudesse incomodar os gigantes e, quem sabe, fazê-los olhar para o que temos de valor aqui -, mas é preciso aprender a ir a parques e enamorar-se do mundo, dos contatos, dos conflitos até!

Sem galinha de ovos de ouro, nem pés de feijão, é preciso subir nossos olhos para esses mundos que jazem além e pensar nos castelos de cristal que - a cada passo incauto - ajudamos a construir. Reinventar nossa própria existência de maneira que possamos esbanjar amor em vez de acumular moedas, curtir a dor em vez de comprar cápsulas de ilusão pronta. Um sorriso largo de olhos molhados em vez da retidão artificial de uma fotografia ensaiada.

Cesar Sinicio Marques

Um comentário:

  1. \o Só quebrando um pouco a monotonia desta manhã cinza.

    Thanks Caesar. Gostei muito de ter lido isso, de verdade. Many thanks.

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